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UMA DIFÍCIL VISITA À TERRA NATAL

6 de setembro de 2011

Viagem de Bento XVI à Alemanha promete protestos e surpresas

ROMA, terça-feira, 6 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – Dentro de três semanas, Bento XVI começará a sua primeira visita à Alemanha, uma viagem apostólica que promete ser histórica, cheia de desafios e potencialmente muito frutífera.

O evento, de 22 a 25 de setembro, incluirá uma visita à capital, Berlim, seguida por Erfurt (na antiga Alemanha do Leste) e Friburgo im Breisgau. O papa celebrará uma missa ao ar livre no estádio olímpico de Berlim, duas outras em Erfurt e Friburgo, e se reunirá com figuras importantes da Igreja, seminaristas, jovens e líderes ecumênicos e inter-religiosos. A visita começará com um discurso no Parlamento Federal, no Reichstag.

Apesar de relativamente curta, a viagem tem diferentes desafios: a secularização domina vastamente a terra natal do papa (embora possivelmente menos na região dele), inclusive com uma minoria de padres e leigos que expressaram abertamente a sua discordância dos ensinamentos da Igreja. Os problemas da Igreja pioraram com a crise dos abusos sexuais que continuam açoitando o país.

E os efeitos são dramáticos. Segundo a Igreja, o número de alemães católicos que abandonaram suas igrejas locais aumentou quase 50% só no ano passado. O problema piorou em parte porque, como membros da Igreja, os alemães devem pagar um “imposto eclesial” e, ao oficializarem seu descadastramento, ficam livres desse imposto. Os católicos, no entanto, ainda são parte significativa da população: 24,6 milhões, ou 30% do total.

“A secularização (na Alemanha) é especialmente difícil para ele”, disse Paul Badde, correspondente do jornal alemão Die Welt em Roma. “Ele vem de um ambiente católico, de uma família católica numa cidadezinha católica. Não era um mundo inquebrantável, mas depois de 1945, ele mesmo viu o processo acelerado de secularização que começou na Alemanha toda”. Este distanciamento alemão da Igreja, segundo Badde, torna a visita do papa “mais complicada” do que a sua última e polêmica viagem à Grã-Bretanha, no ano passado, uma visita que, “no fim, foi um jogo fácil para ele”.

Berlim é a parte mais difícil desta nova viagem. Uma cidade ainda presa do espírito hedonista dos anos 60, que continua no centro das ideologias laicistas. Um grande número de protestos está previsto, incluindo uma grande manifestação durante o discurso do papa no Reichstag. A maioria dos manifestantes protestará contra a doutrina da Igreja sobre o uso da camisinha, o aborto e a homossexualidade.
Mas, diferente da visita de João Paulo II em 1996, quando a polícia foi incapaz de controlar alguns dos manifestantes que jogaram tinta no papamóvel, a esperança é que desta vez não haja violência nem prisões. O prefeito homossexual de Berlim, Klaus Wowereit, tentou o tom conciliador, dando ao papa as boas-vindas oficiais (apesar de dizer entender os que planejam as manifestações, assumindo que elas acontecerão de forma pacífica).

Com ou sem protestos, Badde acha que uma visita de estado de Bento XVI poderia recolocar o catolicismo no mapa da Alemanha. A nação, diz ele, pode ser o “país da Reforma”, mas tem profundas raízes católicas e “agora um papa bávaro está ajudando os alemães a se reconectar com sua longa e rica história.”

“Quando eu ouvi que ele tinha sido eleito papa, meu primeiro pensamento foi que a II Guerra Mundial tinha finalmente terminado”, explicou Badde. “Tivemos uma grande história, mas ela se viu reduzida a 12 anos, de 1933 a 1945. E do mesmo jeito que ele está fazendo com a Igreja através da hermenêutica da continuidade [seu ponto de vista de que o Concílio Vaticano II não significou uma ruptura com a tradição], ele também está representando melhor a grande história da Alemanha”.

Mas como Bento XVI mudou a visão da Igreja e dele próprio entre os alemães? O padre jesuíta Bernd Hagenkord, diretor da seção alemã da Rádio Vaticano, acha que a percepção alemã sobre Joseph Ratzinger e a Igreja mudou substancialmente ao longo de 30 anos. “Eu cresci na década de 80, como um menino católico normal, e pensávamos que tudo o que vinha de Roma era ruim, que eles tentavam ter o controle de tudo, que não entendiam a nossa forma de pensar e de viver…”, explicou, acrescentando que o cardeal Ratzinger também era mal visto por causa da sua oposição em temas como a teologia da libertação.

Mas Hagenkord destaca que esse tipo de atitudes “mudou consideravelmente” e que Bento XVI é visto agora como uma pessoa mais humilde e espiritual do que antes. “Houve uma grande alegria quando ele foi eleito. ‘Nós somos o Papa’, foi a manchete de muitos jornais. Agora a euforia não existe mais, mas permanece o interesse, e muita gente quer saber o que ele tem a dizer”.
O padre Hagenkord prossegue: “Não é como um astro pop que aparece e desaparece, só para falar de amor, paz e felicidade. Ele fala de conteúdos que, normalmente, não agradam muito se você é alemão, mas têm que ser falados; é desafiador e não para de gerar manchetes”.

Badde, autor do recente livro “O Sagrado Rosto de Manoppello”, considera que existe na Alemanha não uma minoria, mas uma maioria “silenciosa” que acata a Igreja. Ele também acha que há menos silêncio hoje. “Com a internet, nós temos um fenômeno que vai além, que não é diferente do que houve no Egito; são vozes que começam a se fazer ouvir. Os meios de comunicação católicos estavam nas mãos de grupos de pressão modernistas, mas isso mudou”.

Mas ambos, o padre Hagenkord e Badde, acreditam que o impacto real do Papa na Alemanha não será sentido no curto prazo. “Este é um papa do qual se falará nos próximos 20 ou 30 anos”, disse o padre Hagenkord. “Ele deixará uma herança, que recolheremos e reviveremos uma e outra vez”. No entanto, “a velha fé católica que conhecíamos” nunca voltará à Alemanha. “Esta já se foi, agora devemos estabelecer uma nova forma de ser católico”, disse. “O Papa contribuirá para isso, como outros, a dar forma a nossa identidade, o que significa ser católico”.

Onde o Santo Padre terá, possivelmente, uma maior impacto nesta viagem é na antiga Alemanha do Leste. O padre Hagenkord acredita que há um terreno fértil, já que o Papa se comunica de forma eficiente com aqueles em que o comunismo destruiu o cristianismo. “Ali se palpa um interesse genuíno, querem saber o que é, como funciona, o que é o Vaticano, um sacerdote, um bispo, já não sabem muito mais”, explicou. “Querem escutar, discutir, não estão bloqueados por conflitos que temos na Alemanha ocidental, como ordenação de mulheres, o celibato e a obediência”.

Esta é a razão pela qual, para surpresa de alguns, um ex-comunista do leste da Alemanha convertido em político de esquerda elogiou Bento XVI no mês passado. Gregor Gysi agradeceu o Papa por sua constante pregação por uma sociedade moderna que tenha normal morais para poder funcionar adequadamente, segundo Reuters. Gysi, um advogado reformista dos últimos anos da antiga Alemanha do Leste, destacou com satisfação que Bento XVI tinha dito que a religião sem razão conduz ao fanatismo e que o pensamento racional sem fé pode conduzir a um orgulho excessivo e à intolerância.

É só a primeiro do que alguns crêem que possa ser um número de boas-vindas inesperadas durante esta visita histórica a um país obviamente próximo do coração do Papa, mas também centro das tensões seculares e cristãs. “Haverá surpresas, com certeza”, disse Badde, “surpresas para os alemães e para todo o mundo”.

Por Edward Pentin

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